Não mais chorara desde a morte. Os factos, a realidade já não a comoviam, estranhamente...até aquele instante - a única coisa que ainda a surpreendera - a simbologia (não a de Fulcanelli), os acasos, o tabuleiro de xadrez. Tinha saído do mesmo lugar de sempre, onde o deixara com um beijo de cortesia, máscara que a afundara no cheiro que tão bem conhecia - cheirava a miminho quando acordava - cheirava a restos naquele instante. Chovia. Ela andava sozinha pelas mesmas ruas que ainda os atravessavam, era noite cada vez mais cedo e chegara ao mesmo parque de estacionamento, aquele que todos os dias pelas manhãs era cheio de movimento e confusão, estava ali quase vazio, e à medida que se aproximara, de repente, dois carros no mesmo espaço, paralelos, separados por três lugares entre si, um virado a norte, outro, para sul. Os mesmos que outrora dormiram um atrás do outro e rodavam quase sempre na mesma direcção, e agora ali, quase estranhos, para lados opostos, mas ainda no mesmo espaço, ainda demasiado perto. Como eles.
O piano de Michael Nyman tocava naquele instante só para ela, e no entanto, ainda sabia que havia framboesas e morangos debaixo da pele dele.
Perdera apenas a capacidade de o olhar. É na ausência que encontramos o que está mais presente.
3 comentários:
é quando sentimos a falta.
Canção de Madrugar
De linho te vesti
de nardos te enfeitei
amor que nunca vi
mas sei.
Sei dos teus olhos acesos na noite
sinais de bem despertar
sei dos teus braços abertos a todos
que morrem devagar
sei meu amor inventado que um dia
teu corpo pode acender
uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer.
Irei beber em ti
o vinho que pisei
o fel do que sofri
e dei
dei do meu corpo um chicote de força
rasei meus olhos com água
dei do meu sangue uma espada de raiva
e uma lança de mágoa
dei do meu sonho uma corda de insónias
cravei meus braços com setas
descobri rosas alarguei cidades
e construí poetas
e nunca te encontrei
na estrada do que fiz
amor que não logrei
mas quis.
Sei meu amor inventado que um dia
teu corpo há-de acender
uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer
então:
nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos,
nem pedras, nem facas, nem fomes, nem secas,
nem feras, nem ferros, nem farpas, nem farsas,
nem forcas, nem cardos, nem dardos, nem guerras
nem pedras, nem facas, nem fomes, nem secas,
nem feras, nem ferros, nem farpas, nem farsas
nem forcas, nem cardos, nem dardos, nem guerras
nem mal
Ary dos Santos
"É na ausência que encontramos o que está mais presente." é bem verdade. O segredo está em encontrarmos sempre novos presentes.
All the best
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