domingo, 12 de julho de 2009

As Musas Cegas

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada pelas vozes. E enquanto dorme o leite, a minha casa pousa no silêncio e arde pouco a pouco. No círculo de pétalas veementes cai a cabeça - e as palavras nascem. - Límpidas e amargas. Eis um tempo que começa: este é o tempo. E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas, é o pensamento que verga de flores actuais e frias. A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro. E as estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado de seivas, para a noite que estremece fundamente. Melancolia com sua forma severa e arguta, com maçãs dobradas à sombra do rubor. Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando com a primeira música de água. Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído, com esta coroa recente de ideias, esta mão que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa onde o coração se consome devagar. Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera de minúsculas folhas eternas como uma árvore. Degrau a degrau devorei a alegria - eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas desvairadas, entre jarros transbordando húmidos astros. Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer com os olhos queimados pelo poder da lua. Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe procuro no meu silêncio uma outra forma dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é a casa ligeira colocada num espaço de profundo fogo. E apagaram-se as luzes. - Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra, espécie de boca recolhida no começo? E é tão certo o dia que se elabora. Então eu beijo, de grau a degrau, a escadaria daquele corpo. E não chames mais por mim, pensamento agachado nas ogivas da noite. É primavera. Arde além rodeada pelo sal, por inúmeras laranjas. Hoje descubro as grandes razões da loucura, os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas. Há lugares onde esperar a primavera como tendo na alma o corpo todo nu. Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego que principia. - É preciso cantar como se alguém soubesse como cantar.

11 comentários:

loirices disse...

... como verão que nos consome e derrete :-)

Blanche disse...

loirices: às vezes até congela...

loirices disse...

desfaz, sei :-)

Francis disse...

cum catano...começo a ler e deparo-me com isto "E enquanto dorme o leite, a minha casa pousa no silêncio e arde pouco a pouco." mas o que é que isto quer dizer pá ?

depois já desorientado levo com esta "Melancolia com sua forma severa e arguta, com maçãs dobradas à sombra do rubor"
desisto pá, isto é muita areia prá minha caminete...
pelo menos à 2ªf de manhã...e sem ter bebido nada.

Blanche disse...

mister francis: ah ah ah, repara, não é por acaso que mais ao fim diz "hoje descubro as grandes razões da loucura". não desistas pá.

Francis disse...

eu tenteai não desistir....mas não consegui passar daqui "E não chames mais por mim, pensamento agachado nas ogivas da noite. É primavera. Arde além rodeada pelo sal, por inúmeras laranjas."
é muito à frente.
vou ali beber mais meio jarrinho e já cabao...o fim está perto.

Anónimo disse...

Nomeadamente saber cantar o "Avé maria"! :)

Francis disse...

consegui ler tudo e não percebi nada...

Blanche disse...

O Magnifico Gino: pois, sim, de joelhos.


francis:certas coisas...são assim, não as conseguimos entender, mas têm algum encanto, digo eu...

Francis disse...

blanxinha, ó se têm, ó se têm...

Blanche disse...

francis:.. quinho, pois é pá!